Um único debate. Dois candidatos. Segunda e decisiva volta para eleger o próximo Presidente da República e a triste conclusão de que:
Portugal chegou a um ponto curioso e perigoso. Já não discutimos ideias. Discutimos identidades. Não debatemos soluções. Debatemos tribos.
A primeira volta das presidenciais de 2026 mostrou isso com uma clareza desconfortável: demasiados portugueses olham para quem pensa diferente não como um compatriota, mas como uma ameaça. Como se o país fosse um ringue, e não uma casa comum.
Isto não é apenas improdutivo. É tóxico. E, pior ainda, é conveniente para muita gente.
Porque enquanto estamos entretidos a gritar “esquerda” e “direita”, o país continua exatamente onde estava: com problemas estruturais por resolver, com jovens a sair, com serviços públicos em esforço, com uma economia que cresce pouco e um debate político que cresce ainda menos.
Convém dizer uma coisa simples, que parece revolucionária: nenhuma ideologia tem o monopólio da inteligência. Nem da virtude. Nem da decência.
A política, tal como a religião, tem uma tendência para se desviar do essencial. Não é Deus que divide as pessoas. São as instituições e os dogmas construídos à volta dele. Da mesma forma, não é o país que divide os portugueses. São os partidos e as narrativas que vivem da divisão.
O resultado está à vista: vota-se muitas vezes não por esperança, mas por medo. Não a favor de um projeto, mas contra o pesadelo do outro lado. Uns temem um descontrolo social, outros temem um autoritarismo disfarçado. E no meio disto, o eleitorado vai-se cansando, afastando, desistindo.
E sejamos honestos, brutalmente honestos: a corrupção e a incompetência não têm cor política.
A esquerda tem os seus vícios: compadrio, clientelismo, um Estado pesado que promete muito e entrega pouco. A direita também tem os seus oportunistas: gente que explora medos e inseguranças como estratégia de marketing eleitoral.
O problema não é ideológico. O problema é cultural. É um sistema que se alimenta de ruído e não de resultados.
Assistimos, durante a campanha, a debates que pareciam mais um concurso de agressividade do que uma conversa séria sobre o futuro. Onde esteve a discussão sobre energia, produtividade, educação, inovação? Onde esteve a ambição?
Falou-se muito do passado. Quase nada do país que queremos construir nos próximos dez anos.
E os media, goste-se ou não, também têm responsabilidade. Quando se decide, repetidamente, quem é “viável” e quem é “folclore”, não se está apenas a informar. Está-se a moldar o jogo. A democracia não vive de cardápios fechados. Vive de escolhas reais.
O segundo turno não é apenas uma disputa entre dois candidatos. É um espelho. Um teste à nossa maturidade coletiva.
Quem vier a vencer terá uma obrigação maior do que agradar à sua base. Terá de governar, e inspirar, para lá da trincheira. Portugal precisa de um Presidente que exija resultados, não slogans. Que una o melhor de dois mundos: a proteção social que não abandona ninguém e a liberdade económica que cria riqueza e oportunidade.
O país não se vai salvar com pureza ideológica. Vai-se salvar com pragmatismo, coragem e visão.
Portugal já ultrapassou crises muito maiores do que esta. Já saiu de uma ditadura de quase meio século, já resistiu a colapsos financeiros, já se reergueu em momentos improváveis.
Mas há uma condição: temos de voltar a colocar o país acima do clube.
O jogo político só muda quando os cidadãos deixam de aceitar o espetáculo como destino.
Portugal não precisa de mais trincheiras. Precisa de futuro.
Tim Vieira | January 2026
